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AYÁN,
UMA POÉTICA INTERTEXTUAL
Inaicyra
Falcão dos Santos
Texto
publicado no livro Pluralidade Cultural e Educação,
org. Narcimária Luz, Secretaria da Educação
e
Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil - SECNEB,
Salvador, 1996.
INTRODUÇÃO
O
argumento que pretendo desenvolver neste estudo, é
que, para se pensar na tradição africano-brasileira,
como forma verdadeiramente expressiva na criação
artística, torna-se necessário levar em consideração,
os valores da cultura em questão. Considerando-a como
agente de integração que pode estabelecer uma
coerência, uma organicidade entre a tradição
de um povo, e o conhecimento da arte teorizado, possibilitando
o enriquecimento da nossa cultura.
Trata-se
da busca na criação artística, e consequentemente
a origem de uma proposta pluricultural na dança-arte-educação
brasileira, através da história do indivíduo
e da mitologia. Examinando também nesta experiência,
a possibilidade de uma base de expressão, dentro de
uma perspectiva histórica, religiosa, artística
e intuitiva.
Foi
fundamental compreender o processo, esta busca de espaço,
a fim de torná-lo mais significativo aos artistas e
educadores brasileiros, os quais se comunicam com a sociedade,
no decurso de uma identidade cultural, ou aqueles que buscam
uma educação pluricultural.
"Transformar
a educação atual, defendendo uma educação
para todos, que respeite a diversidade, as minorias étnicas,
a pluralidade de doutrinas, os direitos humanos, eliminando
estereótipos, ampliando o horizonte de conhecimentos
e de visões de mundo." (GADOTTI, 1993, p.1)
Pondero,
entre outros atributos, a performance como vivência
pessoal, aquela que tem me proporcionado a consciência
corporal do meu ser, e a histórica do que sou. Foi
sempre na tradição africano-brasileira que busquei
inspiração, informação, tanto
no aspecto profissional quanto na filosofia de vida. Esta
expressão estabeleceu a origem da hipótese de
criação, de uma expressão artística
no cenário da dança-educação brasileira.
Percebo
a importância da contribuição, e ao mesmo
tempo, o desafio e complexidade de fazer-me compreendida,
como uma artista-educadora, nos parâmetros do universo
acadêmico. O aspecto fundamental seria, ter todo o processo
consciente e informado. Foi necessário para elaborar
e divulgar o trabalho, conhecer, investigar a realidade do
universo ao qual tinha experienciado. Nesta aventura criativa,
procurei respeitar os espaços, ou seja, refletindo
sobre a função do dançar nos rituais
dos terreiros de orixás, e sobre o que seja dançar,
nas composições coreográficas teatrais.
Discernindo a vivência intuitivo-criativa da vivência
religiosa neste universo. Embora nos dois contextos as suas
compreensões sejam realizadas pelo seu próprio
conteúdo, na arte, a criação e na religião
a razão do mito. Todavia, na criação,
o artista une-se à ciência através da
sua capacidade intelectual, abstrai da forma real um novo
conceito estético-simbólico, dominando seu instrumento
através da técnica, experiências acumuladas,
emoção, sensibilidade e profunda consciência
do seu ser. Enquanto que no contexto religioso, os mitos transmitem
os valores, os princípios, as crenças, os ritos
reforçam, moldam a vida da comunidade, onde a função
da arte é de presentificar a força da natureza
ou a de um ancestral. O mito é compreendido, na atividade
ritual na tradição Yorubá, para reconstruir
a vida no terreiro, arrebanhando um sistema de valores míticos
e que influenciam os pensamentos, a natureza e a forma da
cultura africano-brasileira.
O
vínculo com o tema escolhido, um dos mitos de origem
do tambor bàtá, poderia parafrasear Joseph Campbell,
fui capturada por este, e então o que ele pode fazer
por mim de fato! (CAMPBELL, 1992, p. 3)
PASSOS
DA CRIAÇÃO POÉTICA
"...
o artista se vê, naturalmente a sem quaisquer dúvidas
como algo mais que um narrador ou intérprete: acima
de tudo, ele é um indivíduo que decidiu formular
para os outros, com absoluta sinceridade, sua verdade sobre
o mundo..." (TARKOVSKI, 1990, p. 119)
Embora,
que no sentido de tornar claro o discurso, estou expondo o
processo como forma direta, mas é impossível
afirmar os momentos específicos nos quais muitas idéias
iam surgindo enriquecendo a experiência e os momentos
que outras eram removidas por falta de consistência
do argumento corporal e intelectual. Ou seja, houve, toda
uma "ginga" um "negaceio", "vai-mas-não-vai".
Um jogo de cintura, para dar origem à "esperteza"
do trabalho.
Primeiro
Passo: Saturação
Para
se pensar na criação cênica dessa matéria
cultural, procurei assimilar de forma teórica e prática,
o modo que os fenômenos se configuravam, ou seja, as
relações dentro do conteúdo significativo
do universo bàtá. Procurando trabalhar o sentido
prático da vivência como protagonista da ação.
O
bàtá é dança dramática
religiosa, pertencente a um dos numerosos e mais antigos grupos
étnicos do sudoeste da Nigéria, no continente
Africano. Os Yorubás possuem movimentos vigorosos,
espasmódicos, percussivos, vibratórios produzindo
sensações de tensão e suspense, representa
no seu aspecto mítico o relâmpago, o trovão,
natureza simbólica do orixá Xangô.
Na
cidade de Oyó, Nigéria; é onde se encntra
seu grande templo, mas ele é cultuado em todo o estado
Yorubá, no Brasil, Cuba e em outros países das
Américas.
A
dança bàtá, é a representação
corporal do ritmo produzido pela orquestra composta dos tambores
bàtá que a nomeia.
Folabo
Ajayí comenta sobre o bàtá na Nigéria.
"Bàtá
é rápido, dança energética raramente
interpretada por mulheres. É caracterizada por movimentos
bem marcados, definidos, rápidos, torções
e de intrincados passos... A forma dessa dança está
relacionada à dança de possessão que
acontece durante o ritual de Xangô e do ritual Egungun.
É essencialmente uma forma de dança do norte
da região Yorubá. As revisões do alarinjó,
grupo teatral, geralmente dançam o bàtá
como forma de representação através de
temas satíricos." (AJAYI, 1989, p.2)
A
dança é revelada precisamente através
da expressão do ritmo produzido pelos tambores bàtá,
no contexto nigeriano, e pelos atabaques no contexto brasileiro.
Segundo
Passo: Incubação
"O
subconsciente é o depósito de tudo que você
aprendeu e experimentou na vida... O relaxamento é
a chave do funcionamento do subconsciente." (PETERSON,
1991, p.22)
Nesta
perspectiva, a idéia principal surgiu no transformar
o conto mítico em poema. O poder da palavra na constituição
do sistema nagô mostra que:
"A
palavra proferida tem um poder de ação. A transmissão
simbólica, a mensagem, se realiza conjuntamente com
gestos, com movimentos corporais, a palavra é vivida,
pronunciada, está carregada com modulações,
com emoção, com a história pessoal, o
poder e a experiência de quem profere." (SANTOS,
1976, p.12)
Estas
palavras na cultura Yorubá, e por extensão,
na afro-brasileira estão nos mitos, nos contos, nos
"Orikís" (poemas originados do sistema divinatório
oracular do Ifá, que por sua vez se combinam em sub-conjuntos
dos Odu). Nos festivais dos orixás; os mitos são
revividos através da experiência religiosa. O
orixá homenageado, é evocado, e com sua presença
ele vive no presente o tempo primordial, na época em
que o evento teve lugar pela primeira vez. Mircea Eliade argumenta
que se pode falar: "... no tempo do mito, e o tempo prodigioso
"sagrado", em que algo novo, de forte e de significativo
se manifestou plenamente, e reviver esse tempo, reintegrá-lo
... é reaprender sua lição criadora."
(ELÍADE, 1972, p.22)
Terceiro
Passo: Iluminação
Surgiu
assim a personagem Ayán, princípio de vida do
tambor bàtá, que trouxe de forma intrínseca
os elementos corporais, rítmicos, vocais e visuais.
Ayán
Princípio
vibrante
Divaga
Iyó-orun,
ewó-orun.
Nascente,
poente
Vida
e morte,
Meditação
intermitente
Crente
Odu
traçado
Destino
amarrado
Entranhas
emaranhadas
Degusta
afazeres, lazeres
Verte
amores, desamores
Atenta
Orixirixi
Expelindo
desejos latentes
Emerge
a dinâmica
Exú
Interage,
intercede
Ayán
Expande
pele espessa
Repercute,
curtida
Nutrida
batida
Ayán
Espasmódica
Impetuosa,
intensa
Breve
e seca
Ayán
Transcende,
transfigurada
No
fundamento
simbólico
Do
fogo.
Quarto
Passo: Verificação
"É
perfeitamente lógico que a verificação
venha no final do processo criativo, pois aplicá-la
antes causaria uma interrupção no fluxo de idéias."
(PETERSON, 1991, p.26)
Era
imperativo para a realização deste trabalho,
a união da teoria e da prática. Que este refletisse
aspecto fundamental da pesquisa, na performance artística
como um meio de comunicação-expressão.
Obtidas
as informações do vocabulário pesquisado,
da identificação daqueles movimentos e gestos
pertinentes, ou seja, aqueles que recorriam com maior freqüência
nas danças produzidas pelo ritmo bàtá.
A organização sistemática desses dados,
visava a possibilidade da reflexão permanente. Vai,
portanto, resultar na elaboração de uma linguagem
específica, dentro de um conteúdo ainda não
figurado concretamente pelo corpo, encontrando-se oculto,
esperando justamente a realização.
Assim,
procurei construir com base concreta no ritmo, nas suas implicações
no corpo, no espaço, na qualidade dos movimentos, nos
gestos, nas palavras. Fazendo com que a influência desses,
ocorressem nos planos objetivo e subjetivo.
Durante
os exercícios de laboratório, o conhecimento
adquirido tornava-se verdadeiro, incorporado a minha pessoa,
a percepção se transfigurava. Fui adquirindo
consciência, e aos poucos, ia formando um vocabulário
com movimentos que se repetiam com freqüência nas
improvisações. Estes movimentos, então,
vão ser experienciados com variações
estruturais diferentes, na elaboração da configuração
cênica.
A
linguagem cenográfica, espaço, tempo, música,
ritmo, figurino, interagindo dialeticamente. Na originalidade,
da apreensão de síntese da forma, decodificando
a experiência vivenciada incorporada, em uma experiência
artística, num processo de justaposição,
deixando sempre um espaço, para o voluntário.
Portanto,
a realidade temática estava no exterior, mas a sua
realização transformava no meu subjetivo, no
inconsciente, e voltava à superfície concretizando
o espaço interior.
"A
linguagem narrativa segmenta um evento em partes e vai roteirizando
no tempo a compleição do todo. Desse modo, temos
ações seguidas de outras, cujas ligações
obedecem à ordem proposta pelo tempo." (PLAZA,
1987, p.137) O argumento do texto, expressão estética,
fundamentou-se numa narrativa sucessiva, no qual as ações
entre os versos decorrem no tempo, coordenados de forma direta,
cada acontecimento resulta do precedente.
CONCLUSÃO
O
referencial prático-teórico-metodológico,
traduziu uma poética intertextual com uma idéia
de significação de movimentos corporais, de
imagens, de ritmos, de palavras e de elementos cênicos.
Tendo como referência pragmática, a releitura
icônica significativa do tambor bàtá,
através do método da tradução
intertextual, com a variação semântica
de transcrição, com o inve
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stimento estético,
com um olhar criativo e renovador. A montagem cênica
pretendeu mostrar sobretudo, a personalidade de Ayán.
Teve como suporte enfático-melódico o bàtá,
ritmo produzido nos terreiros nagô na cidade de Salvador
(Brasil), enquanto que o vocabulário corporal teve
a qualidade estilística do bàtá-corporal
da cidade de Oyó (Nigéria).
Desta
forma, originou-se um idioleto experimental, semântico,
narrativo, cinestésico, transcrito e subjetivo, uma
proposta também didática no cenário contemporâneo
da arte/educação brasileira.
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